Ferritina baixa com hemoglobina normal: sintomas e causas

Muitas mulheres têm ferritina dentro dos valores de referência e hemoglobina normal, e ainda assim apresentam fadiga persistente, queda de cabelo e dificuldade de recuperação. É défice de ferro sem anemia: a hemoglobina mede o ferro em circulação, a ferritina mede as reservas.

Porque é que a hemoglobina continua normal

O corpo não trata todos os tecidos por igual. Quando as reservas de ferro começam a descer, entra num modo de racionamento: retira ferro dos músculos, da tiroide, do folículo piloso e do cérebro para proteger uma única função, a produção de glóbulos vermelhos. É por isso que o hemograma continua a dar normal enquanto tudo o resto começa a falhar. A anemia é o último degrau, não o primeiro.

Intervalo laboratorial e intervalo funcional

O laboratório considera normal qualquer valor acima de 10 ng/mL. Esse limiar foi definido para identificar anemia, não para garantir função. O intervalo funcional que uso na prática clínica é de 70 a 120 ng/mL. Entre 50 e 70 muitas mulheres já têm sintomas, abaixo de 50 o défice funcional é comum, e abaixo de 30 as reservas são insuficientes.

Porquê 70, e não 30

O limite inferior de 70 não é arbitrário. Vem de um trabalho de Rushton, publicado em 2002 no Clinical and Experimental Dermatology: abaixo de 70 ng/mL, o limite de confiança de 99 por cento deixa de garantir que existe ferro corado nas reservas da medula óssea. Com 45 ou 60 podes já ter as reservas vazias sem que o valor o diga. Outras escolas funcionais usam intervalos mais baixos: a Optimal DX publica 45 a 79 ng/mL, e há clínicas que trabalham com 50 a 100. O tecto de 120 vem da prática clínica, não de um estudo.

A ferritina sozinha não chega

A ferritina é uma proteína de fase aguda: sobe com inflamação, infecção ou excesso de peso, e pode dar um valor tranquilizador com as reservas vazias. A saturação de transferrina mostra que percentagem do ferro está a ser efectivamente transportada: abaixo de 20 por cento, os tecidos já estão em falta. A PCR diz se a ferritina está inflada. O hemograma com VGM mostra se o défice já afectou a produção.

Porque é que a ferritina baixa imita o hipotiroidismo

A tiroide produz sobretudo T4, a forma de reserva, e o corpo tem de a converter em T3, a forma activa. Essa conversão precisa de ferro, e a própria peroxidase tiroideia é uma enzima que depende de ferro. Com ferritina baixa a conversão fica comprometida: frio, cansaço, queda de cabelo, obstipação e pensamento lento, com um TSH perfeitamente normal.

Quando a ferritina não sobe com suplementação

Fazer suplementação correctamente durante três meses ou mais e a ferritina não subir raramente é falta de ferro na alimentação. Ou há uma perda contínua que ninguém contabilizou, e nas mulheres a causa mais frequente é ginecológica (miomas, pólipos, endometriose), ou há um problema de absorção. Este é um ponto em que o meu trabalho para e começa o de um médico: não diagnostico nem prescrevo, reconheço o padrão e encaminho.

Perguntas frequentes

Posso ter sintomas de ferritina baixa com hemoglobina normal?

Sim. A hemoglobina mede o ferro em circulação, enquanto a ferritina mede as reservas disponíveis para uso celular. É possível ter hemoglobina normal e ferritina baixa: os exames convencionais não identificam anemia, mas o corpo já está a funcionar com reservas insuficientes.

Que sintomas pode causar a ferritina baixa?

Os sintomas frequentes incluem fadiga persistente mesmo após descanso adequado, queda de cabelo difusa, intolerância ao frio nas extremidades, dificuldade de concentração e nevoeiro mental, recuperação lenta após exercício, palpitações com esforço moderado e unhas frágeis ou quebradiças.

Qual é o valor ideal de ferritina para uma mulher?

O intervalo funcional que uso na prática clínica situa-se entre 70 e 120 ng/mL. O limite inferior vem de Rushton (Clin Exp Dermatol, 2002): abaixo de 70 ng/mL, o limite de confiança de 99 por cento deixa de garantir que existe ferro nas reservas da medula óssea. O laboratório considera normal qualquer valor acima de 10 ng/mL, o que é um limiar de ausência de anemia e não de suficiência. Entre 50 e 70 muitas mulheres já têm sintomas, abaixo de 50 o défice funcional é comum, e abaixo de 30 as reservas são insuficientes.

Porque é que tenho ferritina baixa se como bem?

As causas mais comuns em mulheres incluem perdas menstruais abundantes, absorção reduzida (permeabilidade intestinal, hipocloridria ou dieta pobre em ferro biodisponível), stress crónico (o cortisol interfere com a absorção e utilização do ferro), inflamação crónica (a hepcidina sequestra o ferro nos depósitos), gravidez e pós-parto, e dietas restritivas.

Que outros valores devo pedir além da ferritina?

A saturação de transferrina é o mais importante e o que mais falta nas análises que recebo: abaixo de 20 por cento, os tecidos já estão em falta mesmo com ferritina aparentemente aceitável. Vale também pedir PCR, porque a inflamação faz a ferritina subir e pode dar um valor falsamente tranquilizador, e o hemograma completo com VGM.

Porque é que a ferritina baixa causa sintomas se a hemoglobina está normal?

Porque o corpo raciona. Quando as reservas descem, retira ferro dos músculos, da tiroide, do folículo piloso e do cérebro para proteger a produção de glóbulos vermelhos. O hemograma continua normal enquanto tudo o resto começa a falhar. A anemia é o último degrau, não o primeiro.

Porque é que a ferritina baixa imita o hipotiroidismo?

A tiroide produz sobretudo T4, a forma de reserva, e o corpo tem de a converter em T3, a forma activa. Essa conversão precisa de ferro, e a própria peroxidase tiroideia depende de ferro para funcionar. Com ferritina baixa, a conversão fica comprometida: frio, cansaço, queda de cabelo, obstipação e pensamento lento, com TSH normal.

E se a ferritina não subir com suplementação?

Se fizeres suplementação correctamente durante três meses ou mais e a ferritina não subir de forma significativa, raramente é falta de ferro na alimentação. Ou há uma perda contínua que ninguém contabilizou, e nas mulheres a causa mais frequente é ginecológica (miomas, pólipos, endometriose), ou há um problema de absorção. Este é um cenário que exige investigação médica.

A ferritina baixa pode afectar a tiróide?

A combinação de ferritina baixa com TSH elevado é um padrão frequente em disfunção tiroideia subclínica. Por isso, a ferritina raramente deve ser avaliada isoladamente: o padrão mais informativo inclui a combinação com outros biomarcadores, como TSH, VGM, PCR e vitamina D.

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